Conto: Cozinhar com amor

Naquela tarde outonal de sábado, algures na década de 80, em que o sopro do vento levava a dançar pela rua as folhas acastanhadas das árvores, a minha mãe chamou-me para fazermos uma tarefa especial.

Uma tarefa especial de mãe e filha, dizia ela.

- Querida, hoje vou ensinar-te algo que a tua avó me ensinou há alguns anos atrás! Preparada?

 Eu estava sempre preparada para todas as novas experiências com a minha mãe. Ela tinha sempre coisas novas para me ensinar à mistura com carinho e brincadeira.

- A minha avó ensinou a minha mãe, o que a mãe dela já lhe tinha ensinado. Portanto, isto já vem de gerações. Vamos fazer um bolo carregado de sentimentos aromatizado com laranja, que tal?! – diz-me enquanto toca o seu nariz no meu. – Vais buscar as taças enquanto eu preparo a batedora de bolos, sim?

- Sim mamã! – A minha resposta não esconde o entusiasmo que sinto. A minha mãe sabia dar sempre um toque de encanto a todos os momentos.

- Vou ligar o forno, assim quando a massa estiver pronta, o forno está já quentinho para a receber. É como quando os dias estão mais frios e a forma mais rápida de te aqueceres é vires abraçar-te em mim.

Dou um abracinho bem forte à cintura da minha mãe. Ela está sempre tão quentinha e as mãos dela tão suaves.

- Agora que temos as ferramentas prontas, vamos buscar os ingredientes.

A mamã abre a porta do frigorifico e passa-me os ovos que coloco cuidadosamente em cima da mesa. Depois seguiram-se o açúcar, a farinha, o óleo, as laranjas e o fermento. Tudo pronto para ser utilizado.

- Primeiro vamos partir cuidadosamente os ovos e separamos as gemas das claras, colocando as gemas numa taça e as claras na outra. Assim como as emoções na vida, precisamos de separar o que é importante daquilo que não nos faz bem e temos de deixar isso para trás, para nos trazer equilíbrio.

- Agora vamos bater as claras em castelo antes de prepararmos o resto. Queres tratar disso?

Enquanto vou fazendo o que a mamã me diz, ela diz-me que a firmeza que as claras vão tomando é o que vamos ganhando na vida com a calma, inocência e verdade. É interessante como as claras se transformam em nuvens e se é para ficar em castelo, consigo fazer algumas torres simulando um palácio.

Quando as claras ficam prontas, a mamã aproxima a outra taça.

- Agora juntamos aqui nas gemas o açúcar, pois precisamos de adoçar o nosso bolo, assim como na vida precisamos do doce dos afetos, como os carinhos que te dou, que me dás e que nos faz felizes.

Misturamos o açúcar nas gemas até se tornarem um só e não se notarem mais os grãos de açúcar. O meu dedito fez questão de provar o quão doce estava aquela massa.

- Agora ainda adoçamos mais a massa com este sumo de laranja que já preparei. A laranja é a vitamina da energia e representa vitalidade.

Adoro a cor laranja, como a mamã diz é uma cor viva que nos transmite boa energia.

- De seguida juntamos o óleo para tornar o nosso bolo macio e ternurento.

A mamã acrescenta que o óleo vai tornar o nosso bolo suave sem alterar o sabor, também devemos ser capazes de tornar o nosso dia a dia mais ternurento, mantendo sempre a nossa essência.

- Depois juntamos um ingrediente essencial para dar estrutura ao nosso bolo, a farinha! É este ingrediente que vai ajudar a dar forma e vai também ajudar a distribuir os ingredientes uniformemente tornando assim o resultado consistente. Misturado com a farinha vai o fermento para ajudar o bolo a crescer, é em pequena quantidade, mas tem uma função muito importante. É como as pequenas experiências na vida, servem para crescermos. Mesmo quando tens alguma dificuldade, não deves pensar que não serve para nada, mas sim para aprenderes.

A mamã sabe sempre como me explicar as coisas da melhor forma. Mesmo quando não sei o que fazer, ela consegue fazer com que eu não desista de nada.

Até agora as claras ainda não tinham sido utilizadas e questiono sobre isso.

- Muito bem observado, pois agora que temos a massa praticamente envolvemos as claras que estão prontas, com todo o cuidado, para dar volume ao nosso bolo e tornar toda a textura mais leve e fofa.

A massa agora com volume parece super fofa, nuvens doces de laranja! Yuppi!

- Agora já temos a nossa massa pronta, é só colocar na forma e levar ao forno. Queres rapar a taça? – E a minha mãe atrevidamente suja-me o nariz com um pouco da massa cheirosa.

Enquanto eu rapava a taça do bolo, a cozinha é preenchida por um doce e quente aroma. Depois de lavar a loiça a minha mãe ia preparar um chá para depois acompanharmos com o bolo.

- E como os melhores momentos só são inesquecíveis se forem partilhados, queres ir chamar a dona Elvira para vir lanchar?

- Oh claro que sim, mamã!

A dona Elvira era a nossa vizinha da casa ao lado, tinha cerca de noventa anos e era mais como minha avó, desde pequenina que me conta histórias de encantar e enche-me sempre de mimos. A Dona Elvira era muito sábia e para mim representava tudo o que havia de mais ternurento neste planeta. Realmente era uma ótima companhia para comemorar aquele momento afetuoso.

Os anos passaram e nesta tarde outonal, eu e o meu filho aguardamos que o bolo dos afetos saia do forno. O aroma que se apresenta na cozinha é o resultado de uma tarefa especial de mãe e filho. A minha mãe olhava para nós esboçando um sorriso apreciador enquanto bebia a sua chávena de chá de camomila. O legado assim continua com muitos afetos.

Sobre mim...

Angela Antunes, gosto de escrever para crianças, porque assim como não há limites para sonhar assim também não há limites para escrever.

E como todas as crianças gosto de aventura, gosto de descobrir e não ficar parada.

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Criado por Angela Antunes