Naquela manhã brindada pelo sol primaveril, deslizava uma carta por debaixo da porta da entrada. Ainda a ajeitar a trança do cabelo e com as pernas meias trôpegas a descer as escadas, Maria apressa-se a ir pegar na carta, de mãos trémulas, com a esperança de boas notícias.
“Meu amor,
Espero que ao leres estas palavras, te encontres bem.
Desculpa ter demorado tanto tempo a escrever-te, mas os dias no meio da mata não
permitiram. Tem chovido muito aqui.
Quero que saibas que me encontro bem, o teu amor enche-me de coragem a cada
passo que dou para o desconhecido.
Não vejo a hora desta guerra acabar e vivermos o resto dos nossos dias bem
juntinhos, eu tu e a nossa filha.
Ela já caminha? Já fala?
Quero muito ouvir ‘papá’.
Está quase meu amor, está quase.
Para sempre teu,
AS”
Já fazia mais de um ano que Maria se tinha despedido do seu amor. Grávida, via a
guerra roubar-lhe o recente marido, fosse por quanto tempo fosse.
Aquelas palavras davam-lhe agora algum alento de que a sua família estivesse
reunida em breve.
Catorze meses, de separação que se tornaram no eterno roubo da sua felicidade
plena.
- Mãe, estás aqui?
- Sim, querida. Olha, chegou esta carta, mas é para a filha do Martins da casa ao lado.
- Mais uma! Pode ser importante, já lhe vou lá entregar, não te preocupes.
Maria olha para a fotografia antiga que tem com o marido, sorri enquanto lhe cai uma lágrima.
A doença que lhe rouba algumas das suas capacidades, consegue dar-lhe alguns
momentos de felicidade e esperança, fazendo-a recuar décadas ao encontro do seu
amor, enquanto a morte não lhe trouxer a união eterna.

Aventuras Contadas
para ler e sonhar,
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Criado por Angela Antunes